pelada no escuro

Na primeira vez em que entrei em contato com o Rodrigo achei melhor ligar. Sua voz tranquila transmite uma serenidade e uma paciência rara para seus 26 anos. Rodrigo é cego. Quase de nascença. Glaucoma congênito. É uma doença hereditária que se não for diagnosticada cedo pode levar a cegueira completa. Foi o caso dele. Sua família era muito pobre para ter acesso ao atendimento básico de saúde. Muito pobre para ter acesso a informação. Nascido na Zona Leste, região tradicionalmente operária de São Paulo, Rodrigo e seus irmãos fazem parte das estatísticas dos filhos que não conheceram o seu pai. A mãe, doméstica durante o dia, mãe de cinco durante a noite, quase não tinha tempo para atender as necessidades especiais que a doença de Rodrigo produzia. Ele não pôde completar o primário pois já não tinha condições de enxergar a lousa. De caminhar sem tropeçar. De não ser um empecilho para uma escola pública em franca decadência nos anos 90. Enquanto enxergava vultos e rastros, Rodrigo não aprendeu a ler. Saiu antes. Cegou paulatinamente. Se isolou em sua casa. Não tinha muitos amigos, não tinha muito o que fazer. Assistia à tv aberta em seu quarto fechado. Parado, calado, quieto. Não chora. Seu segredo é ser um rapaz esforçado. A situação piora no fim da adolescência com a morte da sua mãe a quem era muito ligado e que desencadeou um período longo de depressão. Sozinho no escuro. Analfabeto. Desempregado. Seria um história triste e trágica se a vida não fosse mais interessante que a previsibilidade dos nossos medos. Indicaram ao Rodrigo uma ong que ajudava cegos. Ensinava braile. Ensinava informática. Cursos gratuitos. Rodrigo passava dos 20 e não sabia ler nem escrever. Não sabia se deslocar pela cidade. Através da ong aprendeu a ler braile antes de aprender nosso abecedário. Aprendeu a entrar na internet. Trocou a tv pelo youtube. Descolou uma namorada. E conheceu uma turma que jogava um futebol. Nunca havia jogado antes. Se apaixonou. Ainda que de porte esguio, descobriu sua vocação para zagueiro. Daqueles sem frescura. Aliás, futebol de cego tem tudo menos frescura. Tem porrada, tombo, prensa, paulistinhas e um conceito amplo e flexível de jogo de corpo. E, claro, tem gol também. A ong montou um time e inscreveu em campeonatos. Conseguiram uma espécie de bolsa-atleta que permite ao Rodrigo uma vida mais confortável agora que de sua infância. O time treina aos sábados na quadra da Escola de Educação Física da Polícia Militar de São Paulo. Fica a um ônibus e um metrô de distância da sua casa. Um dos goleiros é seu irmão. No futebol de cego os goleiros enxergam. A bola tem um chocalho. Não tem lateral, mas tem escanteio. Tem técnico na beira do campo orientando e, no caso deles, uma técnica, coisa rara de se ver no Brasil. Seus colegas vêm de todos os cantos da cidade e inclusive de cidades próximas, como Campinas. Rodrigo descobriu rápido o que futebol proporciona para gente. A amizade do grupo, a confraternização, a sociabilidade. Não dispensa aquela resenha para discutir o futuro do time, nem uma cervejinha pós-jogo. Corintiano, não faz questão de ir em estádios por causa do preço. Mas gosta de passar horas no youtube escutando documentários ou seus músicos prediletos. Considera Renato Russo e Cazuza mestres da mpb e um dia sonha em publicar seus próprios poemas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s